sábado, maio 3, 2014

Há muitos anos atrás, fui visitar um agente de fotografias, em Milão, estava apresentando a ele meu portfolio. O ano foi 1989 e a agência era Tony Stone. Lembro que conversamos um pouco sobre fotografia em geral e o agente me disse " uma fotografia isolada não revela um fotógrafo. O que faz um fotógrafo não é uma bela foto, mas o conjunto de seu trabalho". Durante os dias seguintes fiquei pensando sobre nossa conversa e acabei incorporando esta afirmação as minhas convicções. Por isto, já algum tempo prefiro ver o conjunto da obra a uma foto isolada, de alguém. Talvez por este motivo também, tenho resistência a  apreciar fotografias de silueta em finais de tarde. Eu mesmo, quando utilizo este recurso, tenho cuidado para não fazer disto um truque, mas parte de uma narrativa. Tenho utilizado este recurso cada vez menos. Não gosto de truques em fotografia. Porém, vejo muitos truques atualmente. Não gosto. Sou de um tempo em que a narrativa é parte na construção de uma imagem. E sou de um tempo em que a renovação é parte de uma trajetória. Hoje, parece, existem muitos mágicos, poucos fotógrafos. Muitas armadilhas, pouca identidade. Vejo muita gente fazendo armadilhas com o seu olhar na tentativa de conquistar o olhar alheio, e depois  ávidos, correm para publicar suas fotos "artísticas" nas redes sociais. Está aí o Facebook para confirmar isto. Estes "fotógrafos" correm em busca de um angulo diferente como se fosse um truque mágico. Um angulo é parte de uma narrativa, seja ela poética ou não. Um angulo novo ou diferente nunca deveria ser tirado da cartola, e sim parte da convicção de como os conceitos básicos  se organizam dentro de uma imagem, a organização harmônica entre luz, textura, perspectiva, planos, etc. Além disto, o uso abusivo de hdr, filtros e o tal instagram (com letra minúscula) são desvios do olhar,  quando mal utilizados  não agregam conteúdo a imagem. Não sou contra a utilização de hdr, de filtros e de um exaustivo tratamento através de programas específicos, mas isto deve seguir certos requisitos. O primeiro deles é saber o limite. Depois, saber que todo o tratamento de imagens, mesmo aqueles que alteram profundamente a imagem original, com apoio de hdr, devem servir como instrumento de uma narrativa individual, e como tal parte de sua identidade. Daí a fotografia deveria ser sempre um depoimento autoral, único, comprometido, a expressão individual de quem produziu a imagem. Daí a importância de entender a linguagem fotográfica, e desenvolver sua própria linguagem. Sempre existe um diálogo inerente em cada fotografia, em cada narrativa.  A construção desta linguagem fotográfica pessoal e autêntica representa a própria identidade do autor, do fotógrafo.