sexta-feira, outubro 12, 2012

Escrevi esta crônica no final de 2002. Neste ano estava morando com minha família em  Santa Cruz, Califórnia. A convite do jornal Correio do Sul,  eu enviava toda semana um texto crônica sobre a vida na Califórnia.  Selecionei esta sobre meu encontro com Bob Ficth  para postar aqui no blog.

Bob Ficth começou a atuar em movimentos ligados aos Direitos Civis quando mudou-se para Berkley, Califórnia, no início dos anos 50. Foi lá que pela primeira vez teve contato com a música folk, o que abriu seus olhos para um mundo mais humanista. Mas foi no Estado do Alabama, e após ter lido o livro “Fire Next Time”, contando a história do Harlem, o bairro negro de Nova York, que ele começou  a trabalhar como fotojornalista de organizações ligadas ao movimento pelos Direitos Civis. Como fotógrafo do Souther Christian Leadership Conference conheceu o Dr. Martin Luther King Jr., com quem viajou pelos estados sulistas do Alabama, Mississipi e Georgia, documentando a luta dos negros pela igualdade de direitos aos brancos.  Bob Ficth tournou-se fotógrafo oficial de Marting Luther King, e através da convivência diária, tornou-se seu amigo. Sua esposa, que atuava no mesmo movimento, foi secretária particular do Dr. King.  Esta semana estive com Bob Ficth (63), na sede do Resource Center For Non-Violence, organização não governamental que atua em prol da paz.  Logo que abriu a porta do seu escritório, Bob foi logo avisando: “George Bush está dando muito trabalho aos pacifistas, e por esta razão minha agenda está sobrecarregada nas últimas semanas”. Não só nas últimas semanas sua agenda está sobre carregada. Nos últimos quarenta anos, além de fotografar movimentos sociais, ele vem proferindo palestras, organizando encontros em comunidades, ensinando e coletando canções e cantando em corais de igrejas. Ele diz que seu maior prazer no entanto, é cantar música folk em pequenos grupos. Nos inquietos anos 60 e início dos anos 70, apresentou-se com a cantora Joan Baez, e fotografou para  a União dos  Trabalhadores na Agricultura, ao lado do famoso líder sindical Cézar Chavez. Com um currículo invejável em fotojornalismo, e depois de ter publicado boa parte de suas fotos no livro “My Eyes Have Seen”, Bob não se considera fotógrafo, mas um colecionador de histórias. Realmente Bob Ficth é um sujeito que acumulou em sua vida muitas histórias e poucos dólares, e por isso mesmo tem muito o que contar e ensinar.  Revelou que sua agenda está ocupada porque esta dedicando parte do meu tempo a ensinar os americanos a barrarem o presidente Bush a fazer mais guerras.  Bob contou que teve várias visões e sonhos com Martinh Luther King, após seu assassinato, o qual ele, Bob, presenciou. Nos sonhos, “Doc”(como ele chamava o amigo Dr. King) aparecia e dizia “Continua o trabalho, Bob”. Ele continua ainda hoje a construir caminhos que levem a realizar seus sonhos por uma sociedade mais justa. Com um sorriso tranquilo afirmou “Passei minha vida trabalhando ao lado de homens e mulheres que realizaram sonhos impossíveis”.  E concluiu dizendo: “A música folk sempre me ajudou a manter a alegria, o bom humor e a esperança  na vida”. Mesmo com a genda lotada de compromissos, Bob aceitou o convite para jantar em minha casa, e pediu para comer vatapá, o que eu lhe adverti: “Feito por um gaúcho, o vatapá será a prova definitiva para manter tua alegria, bom humor e esperança na vida”.

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