domingo, outubro 27, 2013

Muita coisa mudou desde que morei na Califórnia,  em 2002. Agora, Obama é o cara. Nos tempos de George Bush, diariamente se via alertas contra um possível ataque terrorista. O perigo era compartilhado pela cor da tarja exibida na tela da TV. A economia andava lenta e havia mais desemprego.  O esperado ataque nunca aconteceu. Não havia facebook, nem skype, nem twitter. A comunicação com o Brasil era feita através de telefonemas e troca de emails. Agora, é possível saber da vida de todo mundo, num só tempo, basta entrar no facebook. Nada mais é privado, tudo é compartilhado.  A rede que era pra ser social, virou pessoal, e o que era pra ser pessoal passou a ser compartilhado. Como se não bastasse postar seu retrato no perfil do facebook, tem gente que posta fotos de partes do corpo: pés, mãos e orelha são as mais publicadas. Há casos mais específicos. Esta semana, por exemplo, uma “amiga” foi ao dentista, arrancou dois dentes, chegou em casa com a boca anestesiada, correu para o banheiro fez uma foto do céu da boca com uma imensa cicatriz e postou na rede social.  Provavelmente estava sob efeito da anestesia “local”.  Tem os avisos de utilidade pública, muito oportunos. Como de um  amigo que pegou uma gripe e, antes mesmo de tomar uma aspirina, compartilhou com a humanidade seu precário estado de saúde. As coisas mudaram em todos os lugares e aqui também.  Aqui, temos o  carro das orações. Toda a sexta-feira estaciona na avenida principal da cidade um flamante Oldsmobile 1940, em cima do capô há uma placa onde se lê “We pray for you”. Do lado de fora do carro se forma uma fila de fiéis esperando sua vez de entrar no carro e compartilhar orações. Certa vez, por curiosidade, cheguei a entrar na fila, quando chegou minha vez de ingressar no carro, desisti. Não só orações são compartilhadas, histórias de amor também são dividas com o grande público, através do rádio. No programa “Delilah Show”,  desfilam todas as noites dramas de casais que se separaram, mulheres traídas, maridos abandonados, adolescentes carentes, idosos apaixonados, todos confessam suas fraquezas e, com voz engasgada, tomados pela emoção recebem conselhos da Delilah (Dalila), a apresentadora, que oferece consolo e canções. As histórias vão do trágico ao cômico, embalados pelo melhor do soft rock. Muita coisa é compartilhada nas ruas da cidade. Ainda hoje se vê aqui em Santa Cruz, hippes, pacifistas, músicos, gente portando cartazes pedindo paz, ecologistas pedindo “Free Amazon”, gente pedindo o fim da energia nuclear e pedidos de compaixão pelos animais. O mais divertido, porém, foram dois sujeitos barbudos, tipo cowboys, compartilhando seus desejos. O primeiro caminhava com um cartaz pedindo “me ajude a fazer operação para aumentar o pênis”. Na mesma rua, na quadra seguinte, outro cara a carregava no peito seu cartaz, “me ajude fazer operação para diminuir o pênis”.  Todos os desejos são muito mais compartilhados, em 2013.

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