domingo, janeiro 12, 2014

O ano era 1976. Cláudio e Roberto Almeida estavam envolvidos na criação do jornal O Toque.  Marcello Beltrand e eu fomos convidados a participar do projeto. Sugerimos chamar o Cyro Martins para ajudar na redação, e o Walmore Not para escrever crônicas, eventualmente. O Pedro Wayne já estava no time. A redação do jornal ficava ali na Avenida Sete, (fundos) na  garagem cedida pelo doutor Rubem Almeida. Nós tínhamos então 17 anos, exceto o Pedro, nosso redator senior.  Entre as minhas atribuições constava escrever – bem ou mal, críticas musicais, o que se resumia em comentar lançamentos de discos. Mantive contato com as gravadoras, e elas entregavam, quinzenalmente, pacotes com todas as novidades do mercado de discos. Num destes pacotes veio o álbum Songs In The key of Life, de Stevie Wonder. Um dos discos mais importantes da minha vida em 1976, e em todos os anos seguintes. Songs in the Key of Life foi um álbum revolucionário, precursor de muitos estilos. Ganhou o prêmio máximo da industria da música, o Grammy Award de melhor disco do ano. Stevie Wonder, que andava de saco cheio da política externa do governo americano, havia ido viver em Ghana, país africano muito pobre. Lá, desenvolveu um trabalho assistencial com crianças portadoras de deficiência física. O que serviu de inspiração para o cantor e compositor produzir seu melhor disco, fechando assim, um ciclo virtuoso em sua carreira. Várias músicas deste álbum duplo chegaram ao top das paradas no mundo todo, como “Isn’t She Lovely”, “As”, “I Wish”, “Ngiculela - És una Historia”. O sucesso foi tamanho que ainda hoje o disco figura entre os 100 álbuns mais importantes da história, segundo a revista Bilboard.  O jornal O Toque teve vida curta, era totalmente produzido em Bagé, e impresso em Porto Alegre. Chegou a figurar na lista dos melhores da imprensa nanica do Brasil, ao lado de O Pasquim, Movimento, e Coojornal. Jornais da imprensa nanica eram todos contra a ditadura militar, da primeira a última página. O Toque não fugiu a regra. Tudo era improvisado na redação. Para escrever, tive que pedir emprestado ao doutor Rubens Audino sua máquina Olivetti, novinha em folha. Sorte a dele que o jornal durou poucos meses, e a máquina foi devolvida intacta. Cláudio Almeida era o editor do jornal, ao mesmo tempo fazia traduções de longas entrevistas com intelectuais, de Bob Dylan a Sartre, que eram publicadas na Rolling Stone americana, e depois eram (re) publicadas no Toque; Pedro escrevia sobre literatura;  Roberto criava cartuns; Marcello e Ciro escreviam de tudo um pouco. Passávamos o tempo discutindo novas pautas, imaginando matérias bombásticas as quais nunca foram publicadas, e contando piadas...muitas piadas. Não havia internet, nem email, nem rede social, mas compartilhamos  momentos inesquecíveis, na naquela redação. Foi uma experiência enriquecedora na vida de todos que estiveram lá. Se não engordou nossa conta bancária, foi por um detalhe. Merecíamos ter erguido um império jornalístico tão poderoso quanto de Rupert Murdoch, ou Ted Tunner, pela clareza de intenções que nos movia a fazer o jornal.  Se não ganhos dinheiro, construímos amizades sólidas. De sobra, ganhamos histórias para serem lembradas de um tempo de criatividade,  imaginação e sonhos. Desejo que aos leitores que o novo anos traga boas aventuras como aquelas de 1976. E traga também bons discos,  como Songs in the Key of Life!

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